Quando usar laxantes em crianças: é seguro?

Introdução

Quando se fala em laxantes para crianças, algumas preocupações são muito comuns entre os pais.

“Se usar muito, o intestino vai viciar.”

“Meu filho nunca mais conseguirá evacuar sem o medicamento.”

“Usar laxante por muito tempo pode machucar o intestino.”

Essas preocupações dependem, principalmente, de qual laxante está sendo utilizado e por qual motivo.

Na constipação infantil, os laxantes podem ser uma parte essencial do tratamento. No entanto, alguns tipos de laxantes apresentam características que diferem bastante dos conceitos populares sobre “vício” ou dependência.

→ Para entender melhor como a constipação acontece e por que algumas crianças passam a reter as fezes, leia também: Constipação em crianças: por que é tão comum?

Mãe e menino recebem orientação de profissional de saúde em consultório.

Quais laxantes são usados na constipação infantil?

Entre os medicamentos utilizados estão os laxantes osmóticos, como:

  • polietilenoglicol (PEG)/ macrogol;
  • lactulose.

Esses medicamentos são utilizados no tratamento da constipação funcional em crianças.

Entre eles, o polietilenoglicol (PEG) é considerado a opção de primeira linha pelas principais diretrizes internacionais para o tratamento da constipação funcional pediátrica.

Como funcionam os laxantes osmóticos?

Os laxantes osmóticos aumentam a quantidade de água no intestino e nas fezes.

Assim, as fezes ficam mais macias e fáceis de eliminar.

Isso é importante porque, na constipação, muitas crianças entram em um ciclo de dor e retenção.

Quanto mais dolorosa é a evacuação, maior pode ser o medo de evacuar novamente.

A criança passa a segurar as fezes e, com o passar do tempo, elas ficam mais ressecadas e difíceis de eliminar.

Por isso, manter as fezes macias ajuda a interromper esse ciclo.

Laxante vicia o intestino?

Essa é uma das maiores dúvidas dos pais.

No caso dos laxantes osmóticos utilizados no tratamento da constipação infantil, eles não atuam estimulando diretamente os movimentos do intestino.

Seu principal mecanismo é aumentar a quantidade de água nas fezes.

Por isso, esses medicamentos não fazem com que o intestino se torne “preguiçoso”.

Ao contrário, ao reduzir a dor e facilitar a evacuação, ajudam a criança a interromper o comportamento de retenção.

Além disso, em casos de retenção prolongada, o reto pode permanecer dilatado e perder temporariamente parte da sua sensibilidade. A manutenção de evacuações regulares permite uma recuperação gradual da função normal.

Meu filho conseguirá evacuar sem o medicamento depois?

Na maioria dos casos, sim.

No entanto, algumas crianças precisam de tratamento por períodos mais longos.

Isso não significa que o intestino “viciou”.

A constipação é uma condição multifatorial. Fatores como predisposição individual, alimentação, consumo de líquidos, comportamento e trânsito intestinal também podem interferir no funcionamento do intestino.

Por isso, quando a medicação é retirada, algumas crianças podem voltar a apresentar sintomas.

Além disso, interromper o tratamento antes do momento adequado pode permitir que o ciclo de retenção volte a acontecer.

→ Alguns problemas no tratamento também podem dificultar a melhora. Entenda melhor em: A constipação não melhora: 5 erros comuns.

É seguro usar laxantes por muito tempo?

Quando existe indicação e acompanhamento adequado, os laxantes osmóticos utilizados no tratamento da constipação infantil apresentam um bom perfil de segurança.

O PEG, por exemplo, é amplamente estudado e recomendado pelas principais diretrizes para o tratamento da constipação funcional em crianças.

É importante lembrar que devemos avaliar também o outro lado: o que pode acontecer se uma criança que ainda precisa do tratamento não utilizar a medicação?

A constipação persistente pode causar:

  • dor abdominal recorrente;
  • evacuações dolorosas;
  • medo de evacuar;
  • fissuras anais;
  • escapes fecais;
  • constrangimento;
  • dificuldades de socialização;
  • impacto na autoestima e na qualidade de vida.

Por isso, muitas vezes, o maior risco não está no uso prolongado do medicamento adequadamente indicado, mas na interrupção precoce de um tratamento que ainda é necessário.

Os laxantes osmóticos são suficientes?

Na maioria dos casos, eles fazem parte de um tratamento mais amplo.

Dependendo da idade e das características da criança, também podem ser necessários:

  • treino evacuatório;
  • ingestão adequada de líquidos;
  • hábitos alimentares adequados;
  • atividade física;
  • mudanças comportamentais.

Em alguns casos mais graves ou resistentes, outros medicamentos podem ser associados.

Os laxantes estimulantes podem ter indicação em situações selecionadas, sempre com acompanhamento médico e de acordo com as necessidades de cada criança.

A mensagem mais importante para os pais

O tratamento da constipação pode durar meses. Em algumas crianças, pode ser necessário por períodos ainda mais longos.

Por isso, é fundamental que os pais entendam por que o laxante foi prescrito, como ele funciona e por que pode ser necessário utilizá-lo por mais tempo.

Quando os pais têm medo do medicamento, podem reduzir a dose ou interromper o tratamento precocemente.

Isso aumenta o risco de retorno da retenção e da dor.

O objetivo do tratamento não é deixar a criança dependente de um laxante. O objetivo é dar ao intestino e à criança tempo suficiente para recuperar um padrão de evacuação confortável e evitar novas retenções.

Em muitos casos, é mais prejudicial manter uma criança constipada por medo da medicação do que utilizar o tratamento adequado pelo tempo necessário.

Referências científicas

1. Sociedade Brasileira de Pediatria. Constipação intestinal na criança e no adolescente. Sociedade Brasileira de Pediatria.

2. Tabbers MM, DiLorenzo C, Berger MY, et al. Evaluation and Treatment of Functional Constipation in Infants and Children: Evidence-Based Recommendations From ESPGHAN and NASPGHAN. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 2014;58(2):258-274.

3. NASPGHAN. Constipation in Children and Adolescents. Informações e recomendações para o tratamento da constipação pediátrica.

4. NASPGHAN. PEG 3350 and Miralax: safety information for pediatric patients.

Sobre a especialista

Dra. Juliana Guirado é médica pediatra, com especialização em Gastroenterologia Infantil pela Santa Casa de São Paulo e título de especialista pela AMB. Formação sólida e cuidado atento à saúde das crianças.

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